O Dinheiro

O dinheiro reflete nossa imaginação, nossos desejos, necessidades e temores. Ele é nossa principal tecnologia social, por meio da qual vivemos hoje. Se formos sugestionáveis e vulneráveis ao que dizem e pensam os outros, o dinheiro espelhará tudo isso. A angústia que sentimos em relação ao dinheiro é reflexo da angústia que sentimos em relação a nós mesmos.



O dinheiro foi inventado para facilitar trocas entre as pessoas. O detalhe é que muitas coisas que não podiam ser medidas em termos monetários hoje têm preço. É o caso do cuidado com os filhos. As pessoas saem para trabalhar e deixam os filhos com profissionais. Outros não têm tempo nem para a amizade e, quando querem falar dos problemas, têm de pagar a um terapeuta. O dinheiro virou instrumento para aferir até nosso amor-próprio.



Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “Quanto vale essa pessoa?” Há algum tempo, isso seria loucura. Temos que tratar o dinheiro como um meio, não como um fim. Mas, para isso, temos de ter um fim, um objetivo. Transformar o dinheiro em nosso único objetivo é como comer comida com gosto de plástico. Quando temos uma meta real, o dinheiro deixa de ser um problema tão grande.
Nossa cultura nos faz crer que coisas materiais podem nos fazer felizes, mas elas dão apenas um prazer superficial. Prazer é diversão, não perdura, é diferente de felicidade. Precisamos dessas coisas, mas a sociedade capitalista em que vivemos cria desejos para que haja sempre mais demanda. Pelo menos 75% dos produtos produzidos são dispensáveis.



Além disso, quanto mais você tem, mais medo tem de perder o que possui. É a velha história: se você coloca coisas bonitas em casa, vai precisar pôr trancas nas portas, contratar um segurança.

Quando temos dinheiro, começamos a satisfazer os desejos. E descobrimos outros que jamais imaginávamos ter. A ansiedade aumenta. Algumas pessoas sabem como desfrutar dessa situação, mas são exceção. O dinheiro não muda as pessoas, ele apenas traz à tona com mais força algumas características que o indivíduo já possuía, mas estavam latentes. Alguns tornam-se arrogantes. Outros, generosos, mas tudo isso já estava dentro deles, só que não tinham chance de se expressar.



O dinheiro pode ser um instrumento de atenção, ajuda, compartilhamento. De certa forma, ele foi inventado para ser isso mesmo. É preciso cultivar valores humanos, ajudar outras pessoas. Um aluno meu, no México, tinha um filho de cinco anos. No Natal, um menino bateu à porta pedindo esmola. O pai disse ao filho: “Dê a ele um de seus brinquedos”. O jovem pegou um, mas o pai lhe disse: “Não. Um de seus brinquedos preferidos”. O filho resistiu e chorou até que, muito triste, pegou um dos brinquedos de que mais gostava e o deu ao menino. Quando voltou, estava radiante e disse: “Pai, posso fazer isso de novo?” Ele descobriu a alegria de dar alguma coisa de valor.

TEXTO ORIGINAL: Jacob Needleman  - Filósofo americano, professor da Universidade Estadual de San Francisco. Autor do “O dinheiro e o Significado da Vida”


IMAGENS: Obras em acrílico do americano Paul Rousso. Para dar essa forma e textura hiperrealistas em suas esculturas ele utiliza a infusão de calor.