Lembranças do Futuro



Oi! Acabei de voltar do futuro, fui a 2025 fazer uma palestra sobre o livro Falei com Da Vinci, na escola 31 de Janeiro em Campo Bom, uma cidade gaucha maravilhosa. Mal desci da HG-Wells, levei um jato de esterilização… Nem vou falar das medidas de higiene em 2025, vocês são capazes de imaginar. A palestra tinha várias pautas, uma delas era descrever o cenário político em que o livro foi finalizado e publicado. Para quem não lembra, finalizei Falei com Da Vinci em 2019… e publiquei na Amazon em 2020. Pois bem, para galerinha do NCC ( Nível de Conhecimento e Consciência - correspondente ao nosso ensino-médio) entender o universo político em 2019 e 2020, precisei falar a partir de 1984. Para ser sucinto optei por um resumo sobre os presidentes. Iniciei falando do Baixinho mineiro, o poderoso presidente Yoda! Liguei o holograma e disse: esse é o presidente Yoda… como um sussurro ensaiado disseram com brilho nos olhos: um anão!… Em 2025 esses humaninhos ainda encantam, como se fossem seres fugitivos de um livro mágico.  Quando contei que Yoda adoeceu na véspera da posse e morreu 37 dias depois… aquele coro de estudantes suspirou um "ah" longo e comovido… Naquele momento entendi a dor do povo brasileiro em 1985… Corações de estudantes, não esqueçam a canção: "Há que se cuidar da vida. Há que se cuidar do mundo. Tomar conta da amizade…" Preciso dizer que adoro palestrar nos anos 2020, além de bem equipadas, as escolas são incentivadas a desenvolver projetos educacionais inovadores, e são premiadas por isso! Me agrada mesmo, ver que os alunos esqueceram a "antiga lição de morrer pela pátria e viver sem razão"… enfim, são questionadores!

- Quem assumiu no lugar do presidente Yoda?! Perguntou um estudante.
- Um escritor.
- Igual a você?!
- Acho que não… Ele é imortal!
- Imortal!!! Então ele ainda está vivo!

Viajar no tempo às vezes dá um nó na cabeça… É estranho você não saber se ainda está vivo! Ou saber, que está vivo enquanto seus pais  nem nasceram!

- Agora, no meu tempo, ele está vivo. 90 anos! 
- Hã?!... 90 anos era imortal?!!!

Depois de uma explicação sobre a Academia Brasileira de Letras e o termo "membros efetivos e perpétuos", a dúvida se dissipou…

- Entendi: Ad immortalitatem! Disse outro estudante.
- Isso! Rumo à imortalidade!
- Só não entendi pra que serve a Academia?
- Pra que serve… para os escritores…
- Pra que?
- Pra que… hummm… não sei, vou procurar saber e depois te passo!
- Ok!

Em 2025, todos sabem que ninguém sabe tudo… Então emendei a história do presidente James Bond que foi impeachmado, e do sucessor tarado que pisou na Sapucaí e quase também perdeu o cargo por causa de uma… de uma… como vou dizer...

- Eu sei! Grita um alemãozinho com cara de sem vergonha no fundo sala. 
- Sabe?! Pelos risinhos da turma, eu sabia que vinha bomba.
- Quase perdeu o cargo por causa de uma perereca!

A turma caiu na gargalhada, nem o Diretor da escola conseguiu segurar… Esperei a coisa se acalmar, e liguei outro holograma e enchi a boca para dizer: Esse, é o professor presidente! Espantados com a revelação, coreograficamente os alunos viraram a cabeça na direção do professor Victor… Então completei, professor da Faculdade, foi até honoris causa na Harvard! Consegui ouvir um "ah" de alívio… Pois é, em 2025, os alunos são educados, disciplinados e fraternais… no entanto, também não aprenderam a valorizar a profissão do professor. Confesso que fiquei decepcionado e disse:

- Esse professor presidente deu uma lição ao seu povo, que todo professor deveria dar a seus alunos…
- Que lição? Perguntou aluna negra sentada na fila da frente.
- Que o Brasil precisava cair na real!

Antes que minha frase fosse completamente ruminada por eles, liguei outro holograma e apresentei o próximo presidente.

- Esse foi o segundo presidente mais votado do mundo!

Óóó… do mundo, burburinou a sala toda…

- Ele tinha um probleminha de dicção, não tinha o dedo mindinho da mão esquerda, tinha apenas o CBC completo, (Conhecimentos Básicos de Cidadão - correspondente ao nosso primeiro grau) era metalúrgico e ficou no cargo por oito anos!

Óóó… Metalúrgico?! Como ele conseguiu ser presidente? Nossa… Oito anos... burburinava a sala…

- E também! Foi o primeiro ex-presidente na história do país a ser preso…

O burburinho cessou, e num silêncio ensurdecedor, narrei os fatos que levaram o presidente metalúrgico a prisão, emendando com, "Mulher da Epopeia a Tragédia" e o "Até Tu a de Temer?" Mal tive tempo de recuperar o fôlego e as perguntas jorraram: O juiz Morno foi candidato a presidente? O que aconteceu com Cuia? O neto do presidente Yoda foi preso?

Respondi todas as perguntas, e liguei o último holograma.

- Esse é o presidente Rambo… (e bla-bla-bla…) É isso, foi nesse cenário político que finalizei meu livro! Alguém quer fazer algum comentário?

- Eu gostaria! Disse erguendo a mão esquerda, a mesma aluna negra sentada na fila da frente.
- Somos todos ouvido!
- Meu nome é Marielle, e vou me preparar para  estudar na UPP (Universidade Pública de Política)... Posso ser franca?!
- Deve…
- Gostaria de dizer que a história dos presidentes é bem interessante… tem aventura, assassinatos, acidentes aéreos, emoção do impossível, ascensão e queda de heróis e uma boa dose de humor… No entanto, a história do presidente Rambo é inverossímil e um tanto...  absurda!
- O que você considera absurdo na história do presidente Rambo?!
- Tudo!
- Especifique algum ponto…
- O presidente do país que detém a maior área da floresta Amazônica não teria essa postura irracional anti-preservação,  sim a postura atual! Liderando e conscientizando o planeta e as nações mais ricas, sobre a importância de preservar a Amazônia para o futuro da humanidade. O valor em Moeda Verde da Amazônia brasileira é incalculável!

Notei que todos na sala concordavam com ela. Decidi incentivá-la a continuar falando.

- Mais algum ponto que queria destacar?!
- O tratamento às minorias! Atacar moralmente e gratuitamente índios, negros e gays, além de ser um ato covarde, não condiz com a postura de alguém que deve representar todo seu povo! Um presidente que reage feito um Pitbull, só por que foi contrariado, demonstra ausência de autocontrole, sinalizando despreparo para o cargo que exerce…
- Bom é que…
- Não terminei.
- Desculpa.
- Não sei como era em 2020. Mas hoje, contrariar a recomendação de um órgão oficialmente reconhecido como  representação mundial é um ato gravíssimo, passível de punição, havendo ou não consequências para humanidade. 
- Concordo…
- Também quero falar da lei que permitia reduzir a pena ou não aplicá-la se o excesso policial decorre-se de escusável medo, surpresa ou violenta emoção…
- Essa ideia de lei não foi do presidente Rambo, foi do Ministro da Justiça, o Morno.
- Que seja. Um presidente deve responder por seus Ministros... Medo! Surpresa! Violenta emoção! Excesso?! A polícia não recebia treinamento? Não eram preparados e qualificados para função?
- Os  comandantes dizem que os policiais são exaustivamente treinados para ação...
- Então essa lei legitimava o poder de morte a uma polícia, que sem tê-lo, já era uma das que mais matava no mundo! Esse tal Juiz Morno, nunca pensou em fortalecer as corregedorias de polícia, ou fazia papel de tolo? Não percebendo a existência da escória policial  que aliciava, ameaçava e assassinava colegas de farda se fosse necessário, para continuar se alimentando com dinheiro de milícias e do crime organizado?!
- Acho que fiquei sem fôlego…
-  Desculpe, seu relato é muito esclarecedor… o Sr. está de  parabéns! Mas, é difícil acreditar na existência de um presidente como Rambo!

Olhando aqueles rostos incrédulos… Vi, o quão profético era o bordão do presidente Rambo… Ele queria e conseguiu… em 2025, ninguém acredita que ele existiu. Ele era um mito…

- Acredite! Ele existiu! Ou melhor, existe!
- Se ele existe, então porque não contou como acaba o mandato dele?!
- Porque não acabou! Estou vivendo esse triste momento!
- Por que não usa a HG-Wells?! Aí saberá como acaba!
- Por que a lei não permite.
- Que lei?!
- Lei da Impenetrabilidade!
- Mas essa lei só impede de ir onde o Sr. já está!
- Porque razão deveria fazer isso?
- Se não gostar como acaba o governo do Rambo, pode voltar para sua época e fazer algo para mudar!

Pensei em dizer que se fizesse isso, provavelmente ficaria como William Cage em Limite do Amanhã...

- Isso é impossível de ser feito!
- Porque?
- Pelo mesmo motivo que não posso voltar ao passado e simplesmente matar Hitler!
- Não é a mesma coisa, vai alterar o futuro! Não o passado…
- Ok… Vamos supor  que eu faça o que sugeriu… Vou para o futuro e vejo coisas que o  Rambo fez e não me agradam … então volto para minha época e faço uma ou duas coisas que julgo mudar o curso das coisas que não me agradaram… Como vou saber, se o que fiz, causou o resultado pretendido?
- Simples! Usando a HG-Wells para voltar no futuro que viu!
- Se vi, já não é mais futuro, é passado, faz parte do meu passado. Portanto, não posso voltar naquele momento, porque já estou lá! E mesmo que eu vá ao futuro para ver meu futuro em determinado tempo, quando estiver lá, vendo as coisas que acontecerão, estarei olhando para um passado que não vivi!  Como não existe memória do futuro, quando voltar ao presente esse fenômeno será apenas imaginação! Por essa razão a máquina do tempo só pode ir onde não estou! Assim, onde quer que eu vá, o 'tempo', será meu presente, estou preso a ele! Atenção: não nele, mas a ele…
- Qual a diferença?
- Os números da megasena!
- Hã?!!!
- É um exemplo, de como não é possível usar o futuro para mudar o presente. Veja, estou aqui no futuro, na sua frente! Só sei que estou aqui, por que estou lá, no presente!
- Então… Eu… sou…
- Você é?!
- Sou apenas fruto da sua imaginação?...
- Não… você é real… será sempre, muito real.


#quem mandou matar marielle?

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Em sua palestra The Discovery of the Future, H.G. Wells defendia ser plenamente possível, com base em evidências, investigar o futuro da mesma maneira que historiadores fazem: “Sobre o passado, eu diria que estamos inclinados a superestimar nossas certezas, assim como penso que subestimamos as certezas sobre o futuro.”


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No trecho:

" - Meu nome é Marielle, e vou me preparar para  estudar na UPP (Universidade Pública de Política)... Posso ser franca?!",

Eucajus realiza uma alegoria a Dissertação de pós graduação de Marielle Franco, intitulada "UPP-A Redução da Favela a Três Letras - Uma análise da política de segurança do estado do Rio de Janeiro-2014".

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(H.G. WELLS-Maq. do Tempo


Se quiser conhecer a Dissertação click AQUI.